Maria Lúcia
sentiu-se mais desanimada.
A chuva que caia impiedosamente lá fora,
entrava por todos os buracos do barraco,
sem dar muita chance
de encontrar um
lugar seco para dormir.
Fora todo esse incomodo, havia o medo
terrível de desabamento naquela favela
construída na encosta de um morro. Como
dizem os moradores mais antigos,
"lugar que ninguém quer é o lugar do
pobre",
mas ela não se conformava com
aquela situação.
Na única cama do cômodo, seus 3 filhos
dormiam quase que abraçados,
a sensação de frio aumentava com o vento
que a chuva trazia.
Passava da meia noite e sua barriga
enviava sinais de fome.
Sua única refeição naquele dia fora um
pão seco que ganhara da vizinha
e ainda dividira com os filhos.
Olhou para o caixote ao lado do fogão e
percebeu que até o
fubá que ela usava
com água e um pingo de açúcar
para disfarçar
a fome das crianças estava acabando, o que seria dela amanhã?
Adormeceu com fome e sonhou que estava
em um campo onde havia
muitas árvores
com frutas de todas as cores. Era um
festival de cores e cheiros que
inundavam a sua alma. Maria Lúcia sentia-se na plenitude dos
seus 23 anos,
envelhecidos pela miséria
e descaso. Esquecera dos problemas e valsava uma
música imaginária
que só ela podia
ouvir. Pegava uma fruta aqui, outra ali e se
deliciava com os sabores... Acordou com um gosto doce na boca, mas
quando abriu os olhos, a triste
realidade a fez chorar.
seu choro, mesmo baixinho, acordou o
filho mais velho, Márcio de 4 anos que abraçou-a e com
seus dedinhos encardidos das
brincadeiras de ontem,
tocou no seu rosto com suavidade: -Mamãe tá chorando?. Por que você está
triste? . Chora não...sonhei com um lindo anjo
esta noite,
e ele falou que alguém viria ajudar a
mamãe ainda hoje.
Maria
Lúcia se surpreendeu com aquele recado
do filho tão novinho.
Onde ele ouvira falar de anjos??? Mais surpresa ainda ficou ao ouvir
palmas na frente do barraco. Abriu a porta timidamente e viu algumas senhoras paradas diante dela.
Todas estavam com um sorriso no rosto e
faziam parte de um grupo
de caridade da
igreja local. Logo se aproximaram e foram invadindo o pequeno barraco com alimentos
que pareciam até coisa de sonho. Arroz, feijão, leite em pó, fubá,
farinha, ovos e até carne... quanto tempo ela não sabia o que era
comer um pedaço de carne.
-Viemos em nome de Deus para ajudar. O
que mais a irmã precisa. Surpresa com todo aquele amor, Maria
Lúcia queria agradecer,
mas falou do seu
maior sonho: arrumar um emprego para poder sustentar
aquelas crianças. Ela sabia que aqueles alimentos iriam acabar em breve, e depois? Só um emprego a libertaria daquela miséria. Seu outro sonho era voltar
estudar,
concluir o segundo grau interrompido
pela gravidez precoce.
Falou
dos seus sonhos, enquanto as irmãs
faziam uma corrente de oração,
depois,
a mais velha perguntou
se ela não queria
trabalhar na casa dela,cuidando da mãe dela que sofria do mal de Alzheimer.
Ela poderia inclusive morar na casinha
que ela tinha no quintal com os seus
filhos. Maria Lúcia não podia acreditar no que ouvia,
grossas lágrimas escorriam
pelo rosto,
beijou as mãos daquela mulher que nem
lhe perguntou o nome e lhe deu uma
oportunidade.
E ela
soube aproveitar aquela oportunidade.
Cuidou da mãe da patroa como se fosse a
sua própria mãe,
e além disso cuidava da
casa da patroa com tanta dedicação, que
mesmo depois do falecimento da mãe dela,
ela continuou morando ali,
onde pode
criar seus filhos com dignidade,
pode
voltar estudar e agora,
prestes a se
formar na faculdade, a nova assistente
social, que nunca esqueceu as suas
origens, bate palmas naquele mesmo
barraco onde um dia o filho disse que
tinha sonhado com um anjo,
e que a
caridade mudou a sua vida. Na noite passada sonhou com um anjo que
lhe mostrara o antigo barraco
e pessoas famintas esperando por ajuda.
Quando a porta se abriu, uma mulher
muito magra e assustada atendeu
com
olhar perdido. Maria Lúcia foi entrando, com as amigas
da igreja, avançando com comida, roupas, esperança e uma parte de Deus.
-Viemos em nome de Deus para ajudar. O
que mais a irmã precisa?
Deus
que nesta noite, através de seus anjos,
falou em mais um coração
disposto a
ouvir. Assim, mais uma vez, antes da caridade,
Jesus entrou naquele barraco,
sentou,
tomou água,
abençoou a todos e partiu
feliz,
porque aprenderam a sua mais
preciosa lição:
"Bem-aventurados
os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia Divina."
Mat. 5:7.
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