Saudades Da Minha Adolescência 

Eh!
Tempo bom.
Naquele tempo o futuro ficava logo ali na esquina,
o
céu era mais perto, o ar cheirava a hortelã,
as
lágrimas eram de perfume e se podia colher os corações como frutas no pé.
Naquele tempo tudo era fácil, os super-heróis eram nossos vizinhos.
A
coisa mais difícil que existia eram os problemas de matemática.
Me
lembro como se fosse hoje,
os
balões coloridos das festas de aniversário eram cheios de sonhos.
Deus
era nosso amigo e saía com a gente todas as noites de sexta-feira,
ainda que nossas mães não acreditassem nisso.
Sofrer era gostoso e namorar era divino,
os
olhos trabalhavam muito mais do que a boca,
ou o tato?
Coitado!
Esse
era o que menos trabalhava embora fosse o que mais precisasse.
Passar de ano era o bilhete de entrada no Paraíso.
Naquele tempo os torpedos eram perfumados e eram movidos à coragem.
O
coração funcionava como uma máquina de fazer algodão doce.
As
manhãs tinham cheiro de esperança.
A
chuva lavava nossas almas com cheiro de terra e as mães eram santas.
Viver era bom pra caramba, talvez por isso nós quase não pensávamos na morte
porque no nosso universo ela simplesmente não existia.
Parece que os sentidos eram mais fortes e o espírito escapava
por
eles deixando sentimentos espalhados pelo ar.
Ah!
Como era bom ser filho de Deus e da terra ao mesmo tempo.
Agora Deus se mudou daqui e a Terra ficou sozinha pra cuidar de nós todos,
dando um duro danado que quase já não aguenta mais de tão cansada.
Mas
eu rezo todas as noites pra Deus voltar
nem
que seja só pra nos visitar de vez em quando, fazer a terra
um
pouco mais feliz e nos dar esperança de que um dia os problemas
de
matemática voltarão a ser a coisa mais difícil do mundo.
(Leopoldo Luiz)

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