Na Balança
Não somos perfeitos.
Todavia, nossa origem e nosso destino são a perfeição.
É rumo a ela que devemos caminhar, é na sua direção que devemos
conduzir nossa existência.

A palavra equilíbrio deve estar presente no que somos e no que fazemos.
Aliás, fazer é a viabilização, a factibilização do ser.
Felizes os que são o que fazem, os que fazem o que são.
Os dúbios, os insinceros, os hipócritas, não conseguem agir assim.
Fazem o que não são, são o que não fazem.
    
Equilíbrio, repito.
É a nossa marca.
Pois devemos fazer a dupla  pesagem de nossas qualidades
e nossos defeitos, de nossas virtudes e de nossos  erros,
de nossos sins e de nossos nãos.
Fazemos tudo para sermos vistos.
Será que fazemos com que nossos olhos cumpram, por sua vez, a obrigação de ver?
E ver não é simplesmente olhar.
É mirar o que está fora, é mergulhar no que está dentro.

Para termos o direito de ser vistos, quando precisamos sê-lo,
não podemos fugir à  obrigação, moral e recíproca, de ver o que devemos ver.
Não se justificam as vendas para que não vejamos aquilo que nos desagrada ver,
mas temos a obrigação de enxergar.
Até mesmo para consertar, para emendar, para reparar.

Somos caminhantes, peregrinos, andarilhos.
E não é a rapidez de nosso passos que deve marcar a nossa jornada,
mas a retidão do caminho.
Retidão que não quer dizer a linha sem voltas, sem contornos,
mas o azimute, o norte, a direção.
Mais anda aquele que, trôpego e até caindo,
está no rumo certo, do que aquele que corre na direção errada,
aquele que escolhe o caminho falso.

Que uso damos a nossos ouvidos?
Temo-los abertos para o que nos agrada e fechamo-los para o que nos aborrece,
ainda que merecido.
Se não os temos abertos para a razão, não somos sequer iguais aos que
chamamos de irracionais, mas que nunca têm seus tímpanos
surdos a bigorna e ao martelo do instinto, uma forma primitiva do que seria,
para nós, a consciência, que não usamos como deveríamos.

Temos mãos ou manoplas?
Dedos ou garras?
O que fazemos delas pode dar-nos dimensão de hárpia ou de canário.
Não podemos impedir que erremos.
Nenhuma falta nossa, porém, será superior, pesará mais que nossa vontade
de não repetir ou de minorar as suas conseqüências.
Verdadeiramente sincero e leal é aquele que, na sua autobiografia,
inclui os defeitos, ainda que os mais graves, os menos conhecidos.

Se erras, tens de corrigir-te; se fazes errar, tens de corrigir pelo menos
duas pessoas: a ti mesmo e àquele que fizeste errar.
É por isto mesmo que é mais fácil que sejas perdoado dos erros que perpetraste do que
das falhas que outros cometeram por teu impulso e por tua insinuação.
Pensas que tens uma balança de precisão na tua mão, na tua inteligência,
no teu raciocínio, nas tuas decisões.

Que isso não te impeça de saber que estás, ao mesmo tempo,
numa balança ainda mais exata, num metro ainda mais rigoroso.
Teu peso físico, pode ser que desejes diminuí-lo, reduzí-lo.
Não faças o mesmo com o teu peso, com a tua consistência,
com a tua massa, com a tua essência moral.
 
Diminuindo-te na balança moral, serás sempre um pigmeu,
por mais que te vejam e te pesem


"Grande Por Fora."

(Texto: Rhámar l'Húmistan )

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