As Janelas
Douradas
(Dezembro De 2007)
O menino trabalhava duro o dia todo,
no campo, no estábulo e no galpão,
pois seus pais eram fazendeiros
pobres e não podiam pagar um
ajudante.
Mas quando o sol se punha, seu pai
deixava aquela hora só pra ele.
O menino subia para o alto
de um morro e ficava olhando para o
outro morro,
alguns quilômetros ao longe.
Nesse morro distante, via
uma casa com janelas de ouro
brilhante e diamantes.
As janelas brilhavam e
reluziam tanto que ele piscava.
Mas, pouco depois, as pessoas da
casa fechavam as janelas por fora,
ao que parecia,
e então a casa ficava igual a
qualquer casa comum de fazenda.
O
menino achava que faziam isso por
ser hora do jantar;
então voltava para casa, jantava seu
pão com leite e ia se deitar.
Um dia, o pai do menino chamou-o e
disse:
- Você tem
sido um bom menino e ganhou um
feriado. Tire esse dia para você,
mas lembre-se de que Deus o deu, e
tente usar para aprender alguma
coisa boa.
O menino agradeceu ao pai e beijou a
mãe.
Guardou um pedaço de pão no
bolso e partiu para encontrar a casa
de janelas douradas.
Foi uma caminhada agradável. Os pés
descalços deixavam marcas na poeira
branca e,
quando olhava para trás, parecia que
as pegadas o estavam seguindo e
fazendo companhia.
A sombra também seguia ao seu lado,
dançando e correndo
como ele desejasse: estava muito
divertido.
O tempo foi passando e ele ficou com
fome. Sentou-se à beira de um riacho
que corria atrás da cerca de amoeiro
e comeu seu almoço, bebendo a água
clara.
Depois jogou os farelos para os
passarinhos, como sua mãe ensinara,
seguindo em frente.
Passando um longo tempo, chegou ao
morro verde e alto.
Quando subiu ao topo, lá estava a
casa. Mas parecia que haviam fechado
as janelas,
pois ele não viu nada dourado.
Chegou mais perto e aí quase chorou,
porque as janelas eram de vidro
comum, iguais a qualquer outra, sem
nada de ouro nelas.
Uma mulher chegou à porta e olhou
carinhosamente para o menino,
perguntando o que ele queria.
- Eu vi as
janelas de ouro lá do nosso morro -
disse ele - e vim para vê-las,
mas
agora elas são só de vidro!
A mulher balançou a cabeça e riu.
- Nós somos pobres
fazendeiros - disse -, e não iríamos
ter janelas de ouro.
E o vidro é muito melhor para se ver
através!
Fez o menino sentar-se no largo
degrau de pedra e lhe trouxe um copo
de leite
e um pedaço de bolo,
dizendo que descansasse.
Então
chamou a filha, da idade do menino;
acenou carinhosamente com a cabeça,
para os dois e voltou aos seus
afazeres.
A menininha estava descalça como ele
e usava um vestido de algodão
marrom,
mas os cabelos eram dourados como as
janelas que ele tinha visto
e os
olhos eram azuis como o céu ao
meio-dia.
Ela passeou com o menino pela
fazenda e mostrou a ele seu bezerro
preto com uma estrela
branca na
testa;
ele contou do seu próprio bezerro em
casa,
que era castanho-avermelhado com as
quatro patas brancas.
Depois, quando já haviam
comido uma maçã juntos, e assim se
tornado amigos,
ele perguntou a ela sobre as janelas
douradas.
A menina confirmou, dizendo que
sabia tudo sobre elas, mas que ele
havia errado de casa.
- Você veio
na direção completamente errada! -
disse ela. - Venha comigo,
vou mostrar a casa de janelas
douradas e você vai conferir onde
fica.
Foram para um outeiro que se erguia
atrás da casa, e, no caminho,
a menina contou que as janelas de
ouro só podiam ser vistas a uma
certa hora,
perto do pôr-do-sol.
- É isso
mesmo, eu sei! - disse o menino.
No cimo do outeiro, a menina
virou-se e apontou: lá longe, num
morro distante,
havia uma casa com janelas de ouro
brilhante e diamantes,
exatamente
como ele havia visto.
E quando olhou bem, o menino viu que
era sua própria casa!
Logo, disse à menina que precisava
ir.
Deu a ela sua melhor pedrinha, a
branca com listra vermelha,
que levava há um ano no bolso. Ela
lhe deu três castanhas-da-índia:
uma vermelha acetinada, outra
pintada e outra branca
como leite. Ele deu-lhe um beijo e
prometeu voltar, mas não contou o
que descobrira.
Desceu o morro, enquanto a menina o
olhava na luz do poente.
O caminho de volta era longo e já
estava escuro quando chegou à casa
dos pais.
Mas o lampião e a lareira luziam
através das janelas, tornando-as
quase tão brilhantes como as vira do
outeiro.
Quando abriu a porta, sua
mãe veio beijá-lo,
e a irmãzinha
correu para abraçá-lo pelo pescoço,
sentado perto da lareira,
seu pai
levantou os olhos e sorriu.
- Teve um bom
dia? - perguntou a mãe.
- Sim! - o
menino havia passado um dia ótimo.
- E aprendeu
alguma coisa? - perguntou o pai.
- Sim! -
disse o menino. - Aprendi que nossa
casa tem janelas de ouro e
diamantes...
(Tradução de Sergio Barros)